Reflexões sobre o acordo diplomático com o Irã

 

Nos últimos 60 dias o mundo foi bombardeado por uma onda de notícias falando do acordo entre os EUA, o grupo de países possuidores da bomba atômica e o regime fundamentalista do Irã. De forma geral, sem entrar nos detalhes e sem analisar mais profundamente essas notícias, afirmam-se que o acordo é positivo, que é melhor um acordo ruim com o Irã do que nenhum acordo, que é melhor do que a guerra e coisas semelhantes.

Um dos poucos pontos comuns entre os analistas do acordo é que em torno de 20 a 25 anos será necessário um novo acordo, pois as condições sociais e histórias que possibilitaram o atual acordo estarão sem validade e, por isso, será necessário renegociar, estabelecer novas bases políticas e diplomáticas com o Irã. Na prática, o atual acordo com o Irã representa apenas – e somente isso – uma forma de ganhar tempo, ao longo dos próximos anos para se tentar mudar o regime, talvez o regime ser substituído por um versão mais democrática e menos bélica e coisas semelhantes. Se nada der certo, em 20 ou 25 anos o mundo terá novamente que lidar com as ameaças atômicas do regime do Irã e haverá novamente uma corrida em busca de algum honrado acordo para evitar uma cruel e sangrenta guerra no Oriente Médio.

Nesse preocupante contexto, Israel e, mais especificamente, os judeus, foram apresentados como empecilhos para o acordo com o Irã, promotores da guerra e coisas semelhantes. Ao menos na grande mídia, ninguém perguntou pelos “novos” aliados de Israel, ou seja, ninguém perguntou pelos grupos pós-modernos, pós-ocidentais e outros (grupos de pressão homossexuais, pró-aborto, pró-legalização das drogas, feministas, diversas grupos de esquerda, etc) que o governo de Israel, nos últimos anos, ficou elogiando, ficou tentando se aproximar desses grupos, uma tentativa de “fazer amizade”. Onde estão todos esses grupos que não emitiram nenhum comunicado (Nota de Apoio, Nota de Solidariedade, etc) a favor de Israel? Pelo contrário, o que se viu na grande mídia foram vários grupos pós-modernos e de esquerda, nacional e internacional, emitirem notas e comunicados a favor do Irã, elogiando o acordo e criticando duramente o governo e o Estado de Israel.

Diante desse contexto, realizam-se 7 reflexões.

  1. O acordo com o regime do Irã terá pouca eficácia. O máximo que o acordo vai proporcionar é que o regime do Irã possa ter tempo e condições financeiras para temporariamente parar a eterna guerra contra Israel e se concentrar no outro grande inimigo do Irã, ou seja, o regime sunita da Arábia Saudita.  Israel e Arábia Saudita foram os dois polos de guerra ideológica e violência que o regime do Irã se propõe a vencer nos próximos séculos. O Irã não segue o paradigma Ocidental e democrático da modernidade. Pelo contrário, a lógica do regime do Irã é fazer pequenos acordos e continuar num estado de guerra eterno e, com isso, ir conseguindo, ao longo das décadas, pequenas vitórias até atingir o objetivo total que é a destruição de Israel e a vitória esmagadora sobre os inimigos sunitas liderados pela Arábia Saudita.
  2. Alguns analistas colocam que o prazo de validade do acordo com o Irã é de 20 a 25 anos, um tempo muito curto. É preciso recordar que a Alemanha, derrotada ao final da primeira guerra mundial, em 1918, levou apenas 20 anos para se rearmar e, em 1939, começar a segunda guerra mundial, o mais terrível conflito armado vivido pela humanidade até os dias de hoje. O Irã poderá seguir o mesmo caminho, todo cuidado é pouco. 
  3. A história recente da humanidade demonstra que, na maioria dos casos, o conjunto de sanções e acordos diplomáticas pouco funcionam com regimes autoritários e tirânicos. No máximo, o que se consegue é dar uma sobrevida ao regime. O regime se aproveita das sanções e dos acordos diplomáticos e monta algum tipo de estratégia para conseguir prolongar a sua existência por mais 20, 30 ou até 100 anos. Foi assim, por exemplo, com a Alemanha nazista, com a Rússia socialista, com Cuba e com a Coreia do Norte. Portanto, não será um acordo diplomático que vai parar as intensões bélicas e destrutivas do regime do Irã. Por mais bem intencionado que seja o acordo diplomático, ao final, se realmente se deseja mudar ou derrotar o regime, será necessário uma ação mais estratégica, mais enérgica e até mais ofensiva. 
  4. As autoridades israelenses não devem se iludir com o fraco e tênue acordo que mantém com a Arábia Saudita. O regime saudita é o outro polo do regime do Irã. Sendo que, em muitos aspectos, é um polo mais louco e mais violento do que o Irã. Para o regime saudita, assim que a guerra fria com o Irã (o inimigo xiita) estiver vencida (até agora temos uma espécie de empate técnico entre os dois polos dessa guerra fria), a Arábia Saudita se voltará contra o estado de Israel. É questão de tempo para isso acontecer. 
  5. A tentativa de aproximação do governo de Israel com os grupos pós-modernos (grupos de pressão homossexuais, pró-aborto, pró-legalização das drogas, feministas, diversas grupos de esquerda, etc) se deu num quadro de tentar ampliar a rede de apoio a Israel num contexto internacional, cada vez maior, de isolamento diplomático de Israel e amplo apoio a grupos extremistas islâmicos (apoio a causa Palestina, apoio a grupos radicais na Faixa de Gaza, apoio ao Irã, etc). As esquerdas nacionais e internacionais veem os grupos extremistas islâmicos como autênticos lutadores anticapitalistas. Essas esquerdas pouco sabem que quando os extremistas chegarem ao poder, em escala mundial, não haverá mais capitalismo, nem esquerda e não haverá nada que a própria esquerda tanto admira (drogas, liberdade sexual, bebidas alcoólicas, etc). Em grande medida, o projeto do governo de Israel de passar a imagem de um país liberal (aceita o aborto, realiza a parada gay, etc), de se aproximar das esquerdas mundiais, fracassou. As esquerdas continuam apoiando, com ardor, os grupos extremistas islâmicos e fazendo ampla propaganda anti-israelense no mundo. É tempo das autoridades de Israel rever essa estratégia. Ela não vem surtindo o efeito esperado. 
  6. Um perigo pouco comentado na mídia são as pretensões neoimperialistas da Turquia. Esse país que até recentemente era governado pelo ultranacionalista, islâmico e radical Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), liderando pelo pragmático e populista Recep Tayyip Erdogan, tem um discurso de restauração do califado islâmico e do antigo império otomano que, no seu auge, compreendia a Anatolia, quase todo o Oriente Médio, parte do norte da África e do sudeste europeu. Esse império foi dissolvido em 1922 como uma das consequências do fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A atual Turquia, liderada pelo AKP e por Tayyip Erdogan, deseja recriar o império otomano e, com isso, ampliar sua rede de influência política e militar. Uma das consequências mais visíveis dessa política é a atual guerra civil na Síria que, em grande medida, é patrocinada e incentivada pela Turquia. O lado positivo do acordo diplomático com o Irã é poder se olhar para as pretensões militares e colonizadoras da Turquia. Agora que temporariamente o discurso da “agressão americana ao Irã” foi amenizado, é possível se olhar com mais atenção o perigo que representa as pretensões da Turquia para a Europa (Grécia, Macedônia, Albânia, etc) , para Israel e para o mundo. O lado negativo é que o frágil acordo diplomático entre Israel e a Turquia pode está chegando ao fim. Para as pretensões da Turquia é muito mais vantagem reforçar o discurso do “imperialismo de Israel” e do “nazismo sionista”, fazer estratégicos acordos com grupos radicais e nações islâmicas e, com isso, poder se apresentar diante do mundo islâmico como a verdadeira herdeira do califado islâmico. Na prática os sonhos de restabelecer o antigo império otomano é muito mais perigoso para Israel, para a Europa e para os cristãos do que o brutal e bárbaro grupo terrorista Estado Islâmico. A Turquia poderá se transformar, nos próximos 20 anos, na verdadeira sucessora do terror que, em anos anteriores era financiado pelo Irã. Por tudo isso, Israel precisa ter uma estratégia mais eficiente para, nas próximas décadas, conter a Turquia. 
  7. Por fim, é tempo do governo de Israel se reaproximar, de forma mais forte, dos seus tradicionais aliados, ou seja, os cristãos. Por mais que muitos analistas não reconheçam, Israel é o grande escuto da Europa e dos cristãos. No dia que Israel cair, ou pelas mãos do Irã xiita ou pelas mãos da Arábia Saudita sunita, a Europa e os cristãos estarão desprotegidos. Os radicais islâmicos poderão finalmente fazer a grande marcha para Europa, conquistas seus países e escravizarem as suas populações que, até hoje, são majoritariamente cristãs. Israel precisa utilizar esse argumento forte, esse trunfo, para negociar mais apoio nos países cristãos da Europa. O governo israelense precisa demostrar mais boa vontade para com os cristãos e, com isso, ampliar o seu raio de apoio diplomático, coisa que, em tese, não conseguiu com a sua ofensiva diplomática para se aproximar das esquerdas nacionais e internacionais. Por mais que alguns setores mais ortodoxos dentro de Israel não gostem, os cristãos ainda são o grande elo de proteção de Israel.

Prof. Ivanaldo Santos

Co-fundador e vice-presidente do Instituto Filipe Camarão. Filósofo, pós-doutorado em estudos da linguagem pela USP, doutor em estudos da linguagem pela UFRN, professor do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERN. E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br.

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