A polícia e o assédio ideológico

 

Desde a antiguidade até chegar à sociedade moderna que os princípios de servir a coletividade e a fidelidade ao poder civil guiam as forças policiais no Ocidente. Por exemplo, na antiguidade Platão, no famoso livro A República, coloca que as forças policiais devem servir a coletividade, a polis, ao público, e, por sua vez, na modernidade, Montesquieu introduz o princípio que as polícias e demais formações que usam armas (exército, etc) devem servir ao poder civil e, por isso, não devem ser autônomas ou tomarem decisões isoladas e muitas vezes erradas.

É preciso ter em mente que, de um lado, a missão das policias é nobre e ética, ou seja, combater o crime, evitar a barbárie, a guerra de todos contra todos, e, de alguma forma, promover o aperfeiçoamento da sociedade, do ser humano e da civilização. Do outro lado, as polícias vivem constantemente num conflito de interesses, uma espécie de “tentação”. Esse conflito se dá pelo motivo das polícias terem treinamento militar, usarem armas de fogo, conhecerem técnicas de artes marciais, de defesa pessoal e de ataque estratégico a casas e outros ambientes sociais. Dentro desse contexto, como chama atenção Platão, quem poderá evitar que as policiais deixarem de ser os guardiões do povo e da sociedade e se transformem em tiranos, ladrões, assassinos ou protetores de tiranos, corruptos e grupos de ladrões? Esse é um dilema que, a cada século, a polícia tem que enfrentar.

Por exemplo, no Brasil esse dilema, essa tensão é bem visível. Muitos grupos sociais gostariam de transformar a polícia numa espécie de “milícia particular” com a missão de proteger seus interesses pessoais que, muitas vezes, são interesses antiéticos e prejudiciais a vida social. Muitos grupos gostariam de poder, em tese, praticar atos criminosos e, ao mesmo tempo, contar com a certeza da impunidade, pois teriam a proteção e o serviço da polícia.  

Dentro desse contexto emerge o problema da formação política e até mesmo ideológica dos policiais. Em tese, essa formação deve ser voltada, como adverte Platão, para a proteção da vida, do indivíduo, da cidade, da vida pública, para a promoção dos mais nobres e elevados valores éticos.

No entanto, nem sempre essa é a realidade. Muitas vezes os policiais são formados para servirem um partido e/ou grupo político, para servir cegamente uma ideologia política. Basta ver que na Alemanha, na década de 1930, a polícia servia ao partido nazista e não ao povo alemão. As profundas consequências negativas de a polícia alemã servir a ideologia nazista são amplamente conhecidas da história (perseguição, tortura e mortes de inocentes, etc).

Um dos objetivos, até mesmo um sonho, de qualquer partido político autoritário de qualquer ideologia assassina, de qualquer facção do crime organizado é poder controlar a formação ética e educacional dos policiais. Se for possível haver o controle dessa formação, como bem demostrou a experiência nazista, então será possível formar o polícia para qualquer finalidade destrutiva (matar, roubar, etc). Tudo feito em nome de alguma ideologia que aparentemente prega a virtude, o combate à pobreza e a corrupção, mas que, na prática, conduz o indivíduo para a miséria, para a violência e toda sorte de vício social.

É preciso ficar atento com relação aos reais interesses dos partidos e dos grupos políticos se meterem na formação educacional dos policiais. O que esses partidos políticos realmente querem com o policial? Por exemplo, o atual governo, liderado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), insistiu muito para que ideias e valores da ideologia esquerdista fossem ensinados nos quarteis e nos cursos de formação dos policiais. Por que esse interesse? Sem contar que o Fora de São Paulo (FSP), uma organização latino-americana que envolve dezenas de partidos de esquerda na América Latina, tem um plano semelhante, mas, dessa vez, de forma mais ameaçadora, em nível de continente latino-americano. Poderemos ter no Brasil e até mesmo na América Latina a repetição da formação dos policiais na Alemanha nazista.

Isso tudo é muito grave. De um lado, é preciso investir mais na formação ética, cidadã e humanista das policiais no Brasil. Do outro lado, precisa-se investir no caráter autônomo das policias e, ao mesmo tempo, na ligação profunda com as instituições democráticas. O assédio que as polícias têm sofrido no Brasil, a tentativa de interferir na formação educacional dos policiais, por pare de partidos políticos de esquerda e de outros grupos políticos, é perigoso e problemático. Isso pode criar, em um futuro próximo, uma polícia fanatizada ideologicamente como era a polícia alemã na década de 1930. Para combater o assédio ideológico dentro das polícias é preciso, com força, enfatizar os princípios de servir a coletividade e a fidelidade ao poder civil e democrático.  

 

SANTOS, Ivanaldo. A polícia e o assédio ideológico. In: Ação Policial, Natal, ano XXV, n. 139, Edição Nacional, dezembro, 2015, p. 67-68.

Prof. Ivanaldo Santos

Co-fundador e vice-presidente do Instituto Filipe Camarão. Filósofo, pós-doutorado em estudos da linguagem pela USP, doutor em estudos da linguagem pela UFRN, professor do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Letras da UERN. E-mail: ivanaldosantos@yahoo.com.br.

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